Encontros no Alto da Praça
Agnelo dos Anjos Abelho Baltazar, natural da freguesia de Orada (Borba) onde nasceu há 46 anos, é actualmente o rosto do ensino no concelho de Borba. Presidente do Concelho Executivo do Agrupamento Vertical de Escolas de Borba desde 2005, este licenciado em Matemática e Ciências da Natureza vai-nos transmitir a sua opinião sobre o período conturbado que se vive neste sector a nível nacional. As reformas em curso, a iniciativa Novas Oportunidades como meio de qualificação dos portugueses, a elevação de Borba a cidade e a construção de uma nova Escola são alguns dos assuntos que o meu convidado vai focar ao longo desta curta entrevista.
Ao finalizar mais um ano lectivo, qual o balanço a fazer?
É evidente que a expressão certa para grande parte da comunidade é “Missão cumprida”. Aproxima-se o termo da época de exames e a partir de agora, recarregar baterias para um novo ano escolar. O balanço é considerado positivo. Em primeiro lugar os resultados escolares, cujo tratamento estatístico ainda não sendo conhecido na íntegra os dados conhecidos apontam certamente para uma melhoria. Em segundo, as mais diversas actividades organizadas ao longo do ano e sobretudo no encerramento, de certa forma, espelham a motivação e empenho de toda a comunidade, desde alunos, professores, funcionário e encarregados de educação. E finalmente o ano primou pela "normalidade", já que a inexistência de casos de indisciplina como somos por vezes confrontados na comunicação social, dá-nos ânimo no prosseguir do nosso trabalho, da nossa acção em prol do reconhecimento de toda a comunidade educativa.
As reformas no sector da educação têm causado grande insatisfação junto dos docentes. Na óptica do docente e do presidente do Concelho Executivo, qual a opinião sobre as reformas em curso?
Como Agrupamento de relativa dimensão, cuja movimentação diária ronda as 900 pessoas, as reformas, trazem mudanças, e estas, sejam elas quais forem, sobretudo se alterarem a vida diária de cada um, naturalmente produzem insatisfação de alguns e aí também estão os docentes. É certo que houve constrangimentos, mas prevaleceu em todas as alturas, passo a passo, o bom senso, a partilha e o diálogo, como “cavalo de batalha” para os ultrapassar. Creio pois, que o Agrupamento sempre conseguiu estar à altura do enfrentar das mudanças, e isso mede-se, quer pela qualidade dos órgãos de gestão intermédia, dando resposta e adaptando-se numa clara perspectiva de melhoria, quer pelo dinamismo individual e colectivo de toda a comunidade, cumprindo o que está obrigado por lei com um verdadeiro sentido do serviço público, que efectivamente devemos prestar aos alunos e suas famílias.
Digo órgãos de gestão intermédia e restante comunidade, já que o Presidente do Conselho Executivo, não pode por si só, implementar mudanças, isto é, fazer cumprir os diplomas da tutela com a tranquilidade e serenidade necessária se à sua volta existirem constantes forças de bloqueio que o impeçam. Portanto, perante esta dualidade de posição representativa, concluiria, sem muito pormenor, que algumas foram vantajosas para a comunidade que servimos:
- As actividades de enriquecimento curricular, em que a autarquia assumiu aqui, desde o inicio, um papel de extrema importância, abraçando o projecto, revelando-se como entidade promotora. O concurso de docentes, em que a plurianualidade na colocação de docentes, resulta num verdadeiro benefício para o Agrupamento. Anualmente, entre 35 a 40% dos docentes, partiam, criando sérias dificuldades na continuidade pedagógica e no cumprimento de projectos essenciais.
Das menos vantajosas destaco:
- A celeridade das mudanças, não deixando tempo para gerir e digerir com a devida eficácia e eficiência, as anteriores. A avaliação docente, pelo tempo que consumiu e consome, pela burocracia que acarreta, e pelos constrangimentos associados à sua implementação.
O interior caracteriza-se pela alarmante perca de alunos ano após ano, e consequente encerramento de alguns estabelecimentos de ensino. Borba já viu ser-lhe encerrado a escola de Alcaraviça, Aldeia de Sande e Barro Branco. Há mais alguma em risco?
Se analisarmos os prós e os contras, facilmente o conseguimos perceber. Estariam em clara desvantagem em relação aos restantes, quanto aos recursos de aprendizagem à sua disposição, numa escola pequena ou num Centro Escolar. Aqui, lembro as Bibliotecas Escolares, cuja implementação, à partida tem por base o rácio de alunos. Projecto no qual nos envolvemos com a Câmara Municipal, conseguindo no ano transato, a abertura de duas Bibliotecas Escolares em dois estabelecimentos (EB1/JI de Borba e EB1/JI de Rio de Moinhos).
Se considerarmos os últimos três anos, falamos em 759, 742 e 726 alunos, respectivamente em 2006/2007, 2007/2008 e 2008/2009 o que representa efectivamente uma perda de cerca de 2% da população escolar anual. Penso que nos próximos anos, nenhum outro estabelecimento de ensino estará em risco de encerrar no nosso concelho.
O abandono escolar tem vindo a ser uma preocupação do ministério. Como estão os números no concelho e quais as expectativas para o futuro?
Sem a pretensão de resolver um problema que é nacional e deriva naturalmente de factores que não controlamos, temos claramente a intenção de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, para prevenir e reduzir os casos de abandono, dentro ou fora da escolaridade obrigatória. Posso afirmar, que esta é efectivamente uma batalha quase ganha. O abandono real no concelho, tomando como referência os últimos cinco anos, tem vindo sempre a decrescer. Se pensarmos neste ano em concreto, não atingimos o 1%. Significam 5 alunos em 726.
O ano lectivo que agora termina foi o ano de lançamento do CNO de Borba. Ao finalizar este primeiro ano lectivo pode-se afirmar que os objectivos foram atingidos?
O lançamento do CNO de Borba, resultou de um envolvimento estratégico entre o Agrupamento de Escolas e a Autarquia. As metas traçadas, são por ano civil. Se pensarmos que a população adulta do concelho, dados dos últimos censos, cerca de metade dos indivíduos possui apenas o 1º ou 2º ciclo, sem contar com os 22% que não possuem qualquer nível de ensino, o quadro é dramático. Nesta perspectiva, por menores que sejam as metas atingidas, os objectivos estratégicos que presidiram ao lançamento do CNO serão sempre atingidos: Elevar o nível de qualificação da população adulta proporcionando soluções formativas adequadas às suas necessidades escolares e/ou profissionais.
Encontram-se presentemente inscritos 269 adultos de Nível Básico e 246 adultos de Nível Secundário;
Temos certificados até ao momento 1 adulto de Nível Básico – B2, 17 adultos de Nível Básico – B2, 97 adultos de Nível Básico – B3 e 34 adultos de Nível Secundário
Iniciativas como as Novas Oportunidades “dão” competências a alunos a quem abrem portas nunca antes imagináveis. Concorda com a aposta nos números em detrimento da qualidade?
A pertinência da questão será sempre geradora de controvérsia. Mas, e na sequência da questão anterior, não posso aceitar o reconhecimento e validação sem proporcionar ao formando as reais necessidades de formação individuais em áreas deficitárias. Se assim for, não estamos apenas a falar de validação pura e simples e logo não será apenas um número. Houve o aproveitar e aprofundar de competências, o adquirir de outras essenciais, estou-me a lembrar de áreas como TIC, Cidadania, Matemática para a Vida, entre outras e isso é aquisição de conhecimento. Tem a “qualidade” que tem e aí entra a discussão, mas que representa claramente uma melhoria na qualificação e valorização individual, uma ferramenta de motivação, um desafio pessoal de cada um, não temos dúvida.
Por outro lado, perante a constatação de necessidade de elevar os níveis de qualificação dos portugueses, seria impensável não desenvolvermos qualquer dinâmica de solução.
Com a elevação de Borba a cidade, aumentam também as responsabilidades no campo da educação. Borba continuará a “exportar” alunos para Vila Viçosa e Estremoz?
No momento actual a resposta só pode ser afirmativa. Borba, sendo vila ou cidade, com os recursos existentes, garante a escolaridade até ao 9º Ano. Depois os alunos têm que seguir para Estremoz ou Vila Viçosa. São constituídas anualmente 3 turmas de 9º Ano o que significam entre 60 a 80 alunos que se vêm obrigados a efectuar essas deslocações. Perante este quadro, diria tão simplesmente que a necessidade sempre foi mestra de engenhos. Sendo a necessidade óbvia, o engenho sempre poderá vir a ser criado.
Este mês, serão assinados os protocolos de financiamentos entre o Ministério da Educação e as Autarquias para a requalificação e construção de novas escolas. Borba irá receber uma nova escola. Será este o primeiro passo para a implementação do ensino secundário em Borba?
Deve-se essencialmente ao trabalho e empenho da autarquia, cujo executivo nestas questões da educação, quer por força dos diplomas legais, mas sobretudo por vontade própria, cada vez mais se tem afirmado como um parceiro estratégico e mesmo imprescindível em prol da qualidade do autêntico serviço público que estamos obrigados a garantir à população do concelho.
Se será este o primeiro passo, para a implementação do ensino secundário em Borba? O dia de amanhã, ainda está para acontecer, na certeza porém, que em primeiro lugar, terão certamente que ser criadas as condições necessárias à sua implementação. Neste campo, apenas posso adiantar, que projecto contemplará muitas das necessidades materiais para esse passo.
Consegue “olhar em frente” de forma a imaginar Borba dentro de dez anos?
É bastante difícil responder a essa pergunta. Mas não deixa de ser crucial para quem está sistematicamente habituado a planificar a médio e longo prazo. Borba tem potencialidades de desenvolvimento sobejamente conhecidas, a vinha, o mármore entre outros que poderão ser explorados. Estes sectores, a pensar na melhoria da conjuntura económica, devem tornar-se geradores de emprego sustentável e assim, fixar as gentes do concelho e atrair outros. Quem dirige os destinos dos vários sectores de desenvolvimento do concelho, tem que estar à altura das decisões estratégicas importantes a tomar, de reduzir ou senão mesmo, anular o diferencial que a interioridade nos obriga. Esta acção passa pelo aproveitar ao máximo, neste tempo de “vacas magras” todas as energias daqueles que estão dispostos a tirar partido de políticas agressivas e inovadoras, quer elas sejam no campo educativo, social ou económico. Estou certo que a manter-se o ritmo de evolução das estruturas que estão sendo criadas, as que estão planeadas, se revelarão profícuas para o aumento da qualidade de vida dos borbenses. Quero pensar que teremos uma jovem cidade, aprazível e promissora para quem vive e para quem a visita.
(publicação na integra na próxima edição do Jornal Terras Brancas)

























